Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Acidentes custam R$ 60 bilhões por ano, ou 1,5% do PIB

Acidentes custam R$ 60 bilhões por ano, ou 1,5% do PIB

As mortes no trânsito são consideradas uma epidemia global. Todos os anos, os acidentes matam cerca de 1,3 milhão de pessoas ao redor do mundo, e ferem até 50 milhões. O Brasil tem uma participação considerável nesse quadro: em 2013, 54 mil pessoas foram vítimas do trânsito no país, segundo dados da Seguradora Líder, que administra o Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT). O custo dos acidentes para a economia brasileira chega a R$ 60 bilhões por ano, o equivalente a 1,5% do PIB.

Parte do problema é causada pelo aumento da frota de veículos particulares, que cresceu 46% entre 2003 e 2013, aumentando o número de acidentes e prejudicando fortemente a mobilidade nas grandes cidades. Brenda Medeiros, gerente de Projetos de Transporte da ONG Embarq Brasil, defende a expansão do transporte público e propõe a redução dos limites de velocidade nas vias urbanas para 50 Km/h, como recomenda a Organização Mundial da Saúde. “A partir de 60 Km/h a probabilidade de morte de um pedestre ao ser atropelado é de praticamente 100%.”

Para os que acham que isso pode tornar o trânsito ainda mais lento, Brenda argumenta: “Temos vias com limites elevados, de até 80 km/h, que ficam engarrafadas praticamente o dia inteiro. Os carros só conseguem andar nesse limite à noite, quando o risco é maior e há mais acidentes fatais. Seria muito melhor ter mais transporte público, com o trânsito fluindo bem em velocidades menores.”

A partir de 60 Km/h a probabilidade de morte de um pedestre ao ser atropelado é de praticamente 100%

Brenda acredita que os sistemas de BRT (Bus Rapid Transit) – que vêm sendo implantados em grandes cidades brasileiras – podem ser uma alternativa viável e segura para aumentar a oferta de transporte público. No entanto, ela observa que a preocupação com a segurança deve começar ainda no projeto. “Temos de aprender com os erros e acertos dos BRTs já instalados”, diz. “A segurança está nos detalhes e é muito mais caro e difícil corrigir um problema quando a obra foi concluída”, alerta.

A tese é comprovada na prática. “Tivemos alguns casos de atropelamentos na implantação do corredor Transoeste”, lembra Carlos Maiolino, subsecretário de planejamento da Secretaria Municipal de Transportes do Rio. “Depois disso, gradeamos cerca de 39 quilômetros ao longo da Transcarioca, que passa em uma área urbana mais densa. Com isso, canalizamos a travessia de pedestres para locais seguros, e não tivemos nenhum incidente até agora.”

Segundo José Mauro Bráz de Lima, coordenador do Programa Acadêmico de Álcool e Drogas do Instituto de Neurociência Deolindo Couto, da UFRJ, o cenário é de calamidade. “Hoje, em um ano, matamos o equivalente ao número de vítimas da guerra civil da Síria em três anos.”

O cientista afirma que o álcool ainda é o grande vilão, apesar da Lei Seca no trânsito. “Cerca de 60% das mortes no trânsito brasileiro estão relacionadas ao uso de álcool”, diz. “Infelizmente, a Lei Seca não foi suficiente para reverter esse quadro.”

Para Flávio Adura, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina no Trânsito, o problema é de fiscalização. “O Rio de Janeiro é o único Estado que cobra o cumprimento da Lei Seca para valer, e teve uma redução de 36% no número de mortes no trânsito. São Paulo fica em segundo, com apenas 6%”, compara.

Adura critica também a leniência da Justiça com motoristas imprudentes ou que dirigem alcoolizados. “No Rio Grande do Sul, houve recentemente sentença favorável a um motorista flagrado no bafômetro com teor alcoólico de 0,47 mg/L de ar, porque os agentes de trânsito não fizeram testes de alteração de reflexo”, reclama.

A indústria também tenta fazer sua parte, desenvolvendo equipamentos mais seguros. Os novos modelos de ônibus da Scania, por exemplo, oferecem freios auxiliares e freios EBS (ABS com controle de tração). “Também desenvolvemos um sistema de treinamento ativo, que alerta o motorista quando ele comete um erro, num processo permanente de capacitação do motorista”, explica Ciro Pastore, responsável de vendas de ônibus da Scania Brasil.

Bráz de Lima, por sua vez, acrescenta que é fundamental mudar o comportamento e a percepção de motoristas e pedestres no Brasil. “Trânsito é uma matéria de cognição e comportamento, no fundo, 100% dos acidentes envolvem algum erro humano”, explica.

Segundo o pesquisador, é possível mudar esse cenário. “Há 20 anos, morriam 16 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito na França, e hoje esse número caiu para 3 mil.”

Para Charles Scialfa, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Calgary, no Canadá, é preciso estudar meios de melhorar a percepção de risco dos motoristas. “Isso pode ser incluído nos testes de direção, pois é uma habilidade que pode ser desenvolvida, mesmo em pessoas mais velhas.”

Fonte: Valor Econômico